19 19UTC maio 19UTC 2011 por Isis
Colunistas online, especialistas e a sociedade letrada formaram forte oposição esta semana à autorização do MEC à publicação de um livro de ensino da língua portuguesa com conteúdo controverso.
O livro é de autoria da educadora Heloísa Ramos e, ao que indica todas as interpretações – exceto à da própria autora – ele faz clara apologia ao português ERRADO, ou populês, como poderíamos dizer. Segundo a autora, expressar-se corretamente em círculos mais sofrivelmente alfabetizados pode gerar discriminação, “exclusão” e, pasmem, “preconceito homofóbico”. Dominar o idioma e suas nuances mais sofisticadas pode gerar um problemão agora.
Para quem se diz uma “especialista” experiente, nivelar por baixo me parece uma solução muito comodista e pouco genial para uma questão monumental como a miséria intelectual do país.
A ilustre educadora não deve ter o costume de escutar de seus aprendizes frases sonoramente agradáveis como “ês comprô de abacaxi porque o de acerola tava mais caro”, ou “as estauta de Aleijadinho…”! Estou comentando pérolas reais que escutei esta semana em sala de aula – de pessoas que chegaram ao ensino superior através de vestibular e redação.
Após ser criticada por toda uma “turma” de cidadãos sensatos que se sentiram ofendidos com a publicação, Heloísa justificou que seu livro não ensina ninguém a falar errado, apenas legitima a forma de se expressar de uma camada da sociedade. Disse ainda que a “norma culta” só precisa ser usada em concursos, entrevistas de emprego e situações de formalidade; em casa e em ambientes de lazer, podemos falar da maneira que quisermos.
Retruco: “Impossível”.
Fazer uso de construções gramaticais corretas e um vocabulário razoável não é como usar talheres ou lembrar-se de cruzar as pernas ao vestir saias; não é uma escolha e sim um HÁBITO. E o único e “colossal” esforço necessário para adiquirir este costume é treinar DIARIAMENTE; seja em casa, no colégio/faculdade, na pizzaria ou em qualquer lugar que se estiver. Ou se fala CERTO, ou se fala ERRADO. Não existe a “norma culta por hobby“.
Não defendo que precisamos trazer Eça de Queiroz para nosso cotidiano, com seus estapafúrdios, incúrias, deveras e soeres; mas quando alguma colega me reclama que eu fale a “nossa língua” porque considera o adjetivo “convicta” provindo de um inglês muito rebuscado e inacessível, segundo suas próprias palavras – ou quase, é que, apesar de rir e “levar na esportiva”, eu percebo e sinto o quão grave e assustador é o problema do descuido e da indiferença das pessoas para com a comunicação, a mensagem, e o outro: o ouvinte ou leitor.
E como se não bastasse estes cidadãos que apesar de todas as oportunidades insistem no erro com aquela desculpa comum “ah, você entendeu!”, agora nós temos também aval do Ministério da Deseducação para legitimar esse tipo de comportamento.
Democratizar a língua é oferecer a todos o direito de aprendê-la, mas não permitir que quaisquer “nóis é”, “nóis quis” e “ês fez” seja considerado correto.
É um verdadeiro ultraje aos que dedicam um pouco de respeito, decência e admiração à nossa língua. Mas é, antes de tudo, uma afronta aos que virão e que, se depender das teorias educativas muito revolucionárias e esgotadamente ineficientes, podem nem mesmo vir a conhecer a língua portuguesa um dia, pois já estará instaurada e oficializada a “populesa”, que pode ser do jeitinho que cada um achar melhor e do jeitinho ninguém poderá entender. Cada um com seu idioma particular oficial, sem que se expressem e se compreendam; autoridades isoladas em seus assuntos, ciências e suas falas e escritas horrorosas e desagradáveis.
É muito fácil – genial, diria. Uma maneira perfeita de fazer todo mundo inteligente e intelectualizado, sem um centavo e sem um mínimo de ÉTICA. Afinal, demagogia já basta.