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Archive for julho \27\UTC 2010

A Quinta História

Sempre me sinto esquisita quando surge um assunto de preferências e favoritismos e as opiniões alheias não correspondem às minhas. Mas o que fazer, não é?
Sou tomada por um sentimento de inquietação e um desejo de argumentar quase patrióticos… Pior ainda é quando a autoridade do outro no tema é maior que a minha. Sinto-me frustrada, impotente e desarmada.

Aconteceu de novo.

Quando se fala em contos de Clarice Lispector há sempre quem diga “Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro “A hora da estrela”; nunca penso duas vezes antes do contra-ataque – surge como uma avalanche, num impulso desesperado de adentrar um combate verbal de conhecimentos literários e análises filosóficas.

A Quinta História. Sem duvída alguma o mais fascinante devaneio de Clarice.”

Todos me olham. Não adianta, foi dito – arrogantemente diga-se de passagem
A maioria nem sabe do que se trata, e por mais que esgote meu português… esta batalha eu sempre perco. Frustração
.

Aconteceu de novo.

Aula de literatura, quarto horário de uma quinta-feira fria. O assunto; Clarice Lispector. As referências vocês já sabem:”Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro” A hora da estrela“.
Vem a avalanche. Penso uma vez, duas…três. A tempestade se acalma e eu digo quase que num sussurro:

-“A Quinta História é um devaneio fascinante de Clarice, não é mesmo Cléber?.”

Encaro o professor com os olhos quase implorando uma confirmação, uma faísca de entusiasmo pelo lembrete repentino de um conto que transmite singularmente o enigma que é essa autora.
Ele me olha de relance, como se tentasse recordar alguma coisa e diz indiferente:

-Em “A hora da estrela” ela conta a história de Macabéa, uma nordestina atrapalhada que chega ao Rio de Janeiro e lá…

Sinto-me horrorizada, desamparada, decepcionada, ada, ada…
Frustrada
Se o professor não se lembra, quem há de se lembrar?
Prometo-me nunca mais dizer nada sobre “A Quinta História”.

Quem perde são os insensíveis que não sabem apreciar um texto de nuances mil e facetas infindáveis que te apresenta a estória de um novo ponto de vista a cada parágrafo desvendado. Um novo ângulo a cada vírgula. Uma maneira única e maravilhosa de se pensar literatura…
A avalanche ressurge e, em silêncio, quebro a promessa recém-nascida.
Um anjo mudo me confidencia aos ouvidos:

“Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas […]”

O anjo chamáva-se Clarice,
A Quinta História? Só lendo para saber.

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