Sobre Isis

Historiadora; Advogada e Consultora Jurídica Ambiental . Entusiasta do Desenvolvimento Sustentável e defensora da Segurança Ambiental. Fascinada pela vida, suas intempéries e surpresas. Gosta de café e de ouvir boa música em tecnologias quase extintas.

Desejei retomar as atividades deste blog pessoal, e reconhecendo que há um longo hiato temporal desde a última publicação, tomo a liberdade de me apresentar novamente.

São mais de sete anos desde o último post e é inegável tudo o que mudou então. Também eu passei por longas metamorphosis, saborosas ou não. Em sete anos me graduei duas vezes, aprendi milhares de coisas, muitas até úteis.

Faltam alguns textos que já estiveram aqui e que decidi remover para o espaço demonstrar maior coerência com o mundo como o leio hoje.

Christian-Schloe-GEEKNESS-09

arte de Christian Schloe

Enfrentei a desinspiração por certo tempo, até finalizar duas monografias. Muitas palavras e pensamentos depois, reencontrei a minha voz e a vontade de publicar. É um reencontro que me deleita, e os posts seguintes trarão o tom das mudanças e conhecimentos que obtive durante essa ausência.

É chegada a hora de recomeçar o plantio, afagar a terra, conhecer os desejos da terra.

Hoje sou advogada, historiadora e dedico os meus estudos ao Direito Ambiental, segurança ambiental e questões do desenvolvimento e da preservação. São assuntos que muito me estimulam e estarão sempre na pauta do mês, em meio a outros temas diversos, pois eclético é o mundo e como ele eu sou.

Em honra à citada referência a canção de Milton Nascimento, acrescento aqui este deleite de som e letra:

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A mais irresistível e traiçoeira das escolhas: EXPERIMENTAR

Engraçadas as guinadas que a vida dá às vezes; com ou sem nossa permissão ela retoma, destrói, acelera ou adia os projetos e metas que buscamos. Não importa quantas horas ou dias sejam dedicados à reflexão… sempre há dúvida sobre que passo dar em seguida. Aquele destino que pintamos durante anos se torna frágil e incerto; falta certeza para pisar naquele chão que se mostra diante de nós.
Não é uma questão de coragem ou covardia, medo ou entrega… é uma questão de chance!! Dar chance a um sonho antigo, um pressentimento, uma intuição. Quero ir, quero sair, sumir… eu posso, os caminhos estão abertos, mas algo por dentro me diz pra ficar. O lado de fora me puxa, quer que eu vá, mas meus pés estão pesados e mal se movem sobre o chão.
O pior é a decepção de não ter sentido antes. O pesar de não me ter preparado…
.
Paradoxal e simultaneamente à culpa, o pulsar do recomeço, a ansiedade pelo novo e a surpresa pela inesperada mudança de planos – os mesmos destino por outro caminho, mais complicado ou o que for. Com humor o quanto possível. Sinto alívio.
Decidi permanecer, estudar História e simultaneamente Direito, uma escolha que me arece até sensata, ainda que instigante e desafiadora. A cada certeza seu tempo; a cada desejo sua oportunidade.

EXPERIMENTAR: A mais irresistível e traiçoeira das escolhas.

Tragédia Tatuada

Rabisco-me com a lapiseira
As linhas cinza formam traços indistintos
Como nuvens mutantes em um dia tranquilo.

Rios, montanhas, ondas, prédios
Desenho duas torres
Tão idênticas como gêmeas
Despertam-me uma lembrança cinza

Desenho pó, fumaça e calor
calafrio e arrepios
ouço gritos de pavor

Registro em minha pele
o último marco da história
tristeza sofrimento e dor

Três mil pessoas que se foram
tudo em nome de um senhor
Crise medo e agonia
pulítyca do terror
Propaganda tendenciosa
dinheiro jogado fora
guerra até agora!
9 anos de horror

Imagens em minha memória
pó fumaça e calor
calafrio e arrepios
ouço gritos de pavor

Mulçumanos morrendo, ainda
a velha história de um povo superior?

Já foi vingança, armas químicas,
ideologia, reservas petrolíferas…
Qual a desculpa agora? Qual será o motor? (As mesmas)

Presidente preto, jurista e de sangue africano
muçulmano convertido cristão
nada mudou, nada acabou
nobel despendido em vão?

O mundo nem mais se importa
desliga a televisão
É normal, é rotineiro
Nem requer mais atenção.

O pó se assentou
a fumaça se esvaiu
O calor e os calafrios
aqueles milhares de gritos
estridentes e aflitos
ainda me arrepiam de pavor
As poucas horas
que uma década não superou.

Sem uma gota de sangue
em um dia quase tranquilo
a lapiseira me arranhou

É inevitável, não posso negar
é a realidade que me causa dor

LIBERaliDADE – Os jovens estão mais conservadores?

“Faça amor. Não faça guerra”
O lema de uma geração que marcou a história do ocidente.
A década de 70 é o divisor de águas em relação às conquistas que permitem nosso atual estilo de vida – embora nem todos se deem conta disso.
Simbolizada pelo Festival de Woodstock anunciado como “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música” em agosto de 1969, a geração “Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll” pregava nada mais que a liberdade, a personalidade e a vontade de cada um; e o respeito à liberdade, personalidade e vontade de cada outro. Este é seu maior legado.
Não que seja um ideal hoje contemplado, mas é o que se busca.
As gerações posteriores à contracultura (gosto de chamar “contra opressão”) não foram tão radicais, mas estiveram sempre buscando e defendendo a liberdade de expressão de suas opiniões e individualidades.
O sonho da “Sociedade Alternativa” não está perdido. Existem hoje, porém, alguns agravantes novos, e podemos dizer que houve um relativo “amadurecimento” das juventudes no decorrer desses 40 anos, afinal, não havia Crack nem AIDS quatro décadas atrás. A perspectiva de uma guerra global iminente não nos pressiona, e não somos obrigados a obedecer a um regime contra nossas convicções para preservar nossas vidas.
Vivemos uma era bem menos extrema, e isso exige de nós uma maior responsabilidade em nossas atitudes.

O legado ainda está vivo. Muros caíram e preconceitos ruíram; Leilas Dinizes não mais escandalizam niguém, e Lennons e Rauls são lembrados, homenageados. Rita Lee ainda é disco de ouro após coincidentes “40 anos de sucesso” e as mulheres e grupos minoritários seguem abrindo caminhos para novas Revoluções Sexuais.
“Conservadores” não é um adjetivo adequado, mas “conscientes” – talvez mais estáticos, mas sem conformação.
Os jovens, com suas diversas minorias, prosseguem em um movimento silencioso, quebrando paradigmas e promovendo uma “alternativa para a sociedade convencional”.

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“A experiência da contracultura forneceu a evidência mais palpável, até hoje, da possibilidade de uma cultura governada pelo princípio do prazer e não pelo princípio da realidade, gerador de neurose. Pode-se dizer que a contracultura foi a primeira experiência capaz de desmentir, na prática, a suposição de Freud de que não pode haver cultura sem repressão. “

A Quinta História

Sempre me sinto esquisita quando surge um assunto de preferências e favoritismos e as opiniões alheias não correspondem às minhas. Mas o que fazer, não é?
Sou tomada por um sentimento de inquietação e um desejo de argumentar quase patrióticos… Pior ainda é quando a autoridade do outro no tema é maior que a minha. Sinto-me frustrada, impotente e desarmada.

Aconteceu de novo.

Quando se fala em contos de Clarice Lispector há sempre quem diga “Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro “A hora da estrela”; nunca penso duas vezes antes do contra-ataque – surge como uma avalanche, num impulso desesperado de adentrar um combate verbal de conhecimentos literários e análises filosóficas.

A Quinta História. Sem duvída alguma o mais fascinante devaneio de Clarice.”

Todos me olham. Não adianta, foi dito – arrogantemente diga-se de passagem
A maioria nem sabe do que se trata, e por mais que esgote meu português… esta batalha eu sempre perco. Frustração
.

Aconteceu de novo.

Aula de literatura, quarto horário de uma quinta-feira fria. O assunto; Clarice Lispector. As referências vocês já sabem:”Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro” A hora da estrela“.
Vem a avalanche. Penso uma vez, duas…três. A tempestade se acalma e eu digo quase que num sussurro:

-“A Quinta História é um devaneio fascinante de Clarice, não é mesmo Cléber?.”

Encaro o professor com os olhos quase implorando uma confirmação, uma faísca de entusiasmo pelo lembrete repentino de um conto que transmite singularmente o enigma que é essa autora.
Ele me olha de relance, como se tentasse recordar alguma coisa e diz indiferente:

-Em “A hora da estrela” ela conta a história de Macabéa, uma nordestina atrapalhada que chega ao Rio de Janeiro e lá…

Sinto-me horrorizada, desamparada, decepcionada, ada, ada…
Frustrada
Se o professor não se lembra, quem há de se lembrar?
Prometo-me nunca mais dizer nada sobre “A Quinta História”.

Quem perde são os insensíveis que não sabem apreciar um texto de nuances mil e facetas infindáveis que te apresenta a estória de um novo ponto de vista a cada parágrafo desvendado. Um novo ângulo a cada vírgula. Uma maneira única e maravilhosa de se pensar literatura…
A avalanche ressurge e, em silêncio, quebro a promessa recém-nascida.
Um anjo mudo me confidencia aos ouvidos:

“Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas […]”

O anjo chamáva-se Clarice,
A Quinta História? Só lendo para saber.