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Archive for the ‘Melhores’ Category

Tragédia Tatuada

Rabisco-me com a lapiseira
As linhas cinza formam traços indistintos
Como nuvens mutantes em um dia tranquilo.

Rios, montanhas, ondas, prédios
Desenho duas torres
Tão idênticas como gêmeas
Despertam-me uma lembrança cinza

Desenho pó, fumaça e calor
calafrio e arrepios
ouço gritos de pavor

Registro em minha pele
o último marco da história
tristeza sofrimento e dor

Três mil pessoas que se foram
tudo em nome de um senhor
Crise medo e agonia
pulítyca do terror
Propaganda tendenciosa
dinheiro jogado fora
guerra até agora!
9 anos de horror

Imagens em minha memória
pó fumaça e calor
calafrio e arrepios
ouço gritos de pavor

Mulçumanos morrendo ainda
a velha história de um povo superior.

Já foi vingança, armas químicas,
ideologia ou reservas petrolíferas
Qual a desculpa agora? Qual será esse motor?

Presidente preto, pobre e africano
mulçumano convertido em cristão
nada mudou, nada acabou
nobel despendido em vão.

O mundo nem mais se importa
desliga a televisão
É o normal, o rotineiro
Nem mais requer atenção.

O pó se assentou
a fumaça se esvaiu
O calor e os calafrios
aqueles milhares de gritos
estridentes e aflitos
ainda me arrepiam de pavor
As poucas horas
que esta década não superou.

Sem uma gota de sangue
em um dia quase tranquilo
a lapiseira me arranhou

É inevitável, não posso negar
é a realidade que me causa dor

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“Faça amor. Não faça guerra”
O lema de uma geração que marcou a história do ocidente.
A década de 70 é o divisor de águas em relação às conquistas que permitem nosso atual estilo de vida – embora nem todos se deem conta disso.
Simbolizada pelo Festival de Woodstock anunciado como “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música” em agosto de 1969, a geração “Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll” pregava nada mais que a liberdade, a personalidade e a vontade de cada um; e o respeito à liberdade, personalidade e vontade de cada outro. Este é seu maior legado.
Não que seja um ideal hoje contemplado, mas é o que se busca.
As gerações posteriores à contracultura (gosto de chamar “contra opressão”) não foram tão radicais, mas estiveram sempre buscando e defendendo a liberdade de expressão de suas opiniões e individualidades.
O sonho da “Sociedade Alternativa” não está perdido. Existem hoje, porém, alguns agravantes novos, e podemos dizer que houve um relativo “amadurecimento” das juventudes no decorrer desses 40 anos, afinal, não havia Crack nem AIDS quatro décadas atrás. A perspectiva de uma guerra global iminente não nos pressiona, e não somos obrigados a obedecer a um regime contra nossas convicções para preservar nossas vidas.
Vivemos uma era bem menos extrema, e isso exige de nós uma maior responsabilidade em nossas atitudes.

O legado ainda está vivo. Muros caíram e preconceitos ruíram; Leilas Dinizes não causam mais “escândalo” e Lennons e Rauls são lembrados, homenageados e imitados. Rita Lee ainda é disco de ouro após coincidentes “40 anos de sucesso” e o Poliamor atrai milhões de adeptos na Europa e nos EUA, engatinhando para a 3ª Revolução Sexual.
“Conservadores” não é um adjetivo adequado, mas “conscientes” – talvez mais acomodados, mas sem estagnação.
Os jovens, com suas diversas minorias, prosseguem em um movimento silencioso, quebrando paradigmas e promovendo uma “alternativa para a sociedade convencional”.

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“A experiência da contracultura forneceu a evidência mais palpável, até hoje, da possibilidade de uma cultura governada pelo princípio do prazer e não pelo princípio da realidade, gerador de neurose. Pode-se dizer que a contracultura foi a primeira experiência capaz de desmentir, na prática, a suposição de Freud de que não pode haver cultura sem repressão. ”

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MICROCONTOS – Os meus

Prometido e cumprido. Posto aqui os meus.

 

Acordei com céu escuro. Olhei para o relógio. Que estranho, o tempo parou. Acordei de novo. O relógio ainda estava parado. Havia amanhecido.

Não me importa o que dizem. Sou quem sou, sei quem sou. Como nada sei, suspeito que nada sou.

Já quis ser bailarina, jornalista e astronauta. Já quis fazer Direito, Medicina e Culinária. Hoje, o que eu aspiro é ser uma aposentada.

Ele apertou o cinto, apertou a gravata, apertou o passo. Foi trabalhar.
Seu tempo era apertado. Seu orçamento também.

Um rapaz buscava capturar um macaquinho fujão e me abordou no zoológico: “Viu o primata?” “Não”. Seria indelicado dizer que falava com um.

Tom era um homem sem vida. Não tinha amores nem livros. Não tinha ideias nem livros. Não tinha sequer amigos. Muito menos, livros.

Preparava-me para o feriado. Óculos, maiô, protetor solar. Sonhava com o calor, água de coco e o mar. Tudo pronto, mochila fechada. Choveu.

De sonhos transbordava-me a noite. Por piores que fossem, deixava-os. Eles sempre morriam ao amanhecer.

No meio do caminho não tinha uma pedra. Sinto dizer, mas não tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho havia apenas uma flor.

Eu bem que não queria mas a gramática me mandou Se ela mandou está mandado Devo concluir esta oração com um ponto final.

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A verdade sutil de Borges

Según se sabe, esta mudable vida

Puede, entre tantas cosas, ser muy bella.

[BORGES, Jorge Luis, La Luna]

Diante de tal afirmação há quem veria comicidade. Não em reconhecimento à graciosidade do verso, mas achacharia “graça” na ingenuidade poética do autor.

Em um tempo como este, com a agenda rabiscada de compromissos, com inesperadas urgências desesperadas nos incubindo de algo a todo instante, ocupando um tempo que não temos. Época essa de propostas ultrajantes, de emoções banalizadas e de surpresas ensaiadas. Uma vida cheia de vazio.

Pois se enganam os que assim pensam. A vida não é vazia por falta de escolha, uma vez que vivemos, também, numa era de oportunidades. Temos a possibilidade de alcançar nossas metas, desde que não sejam, obviamente contraditórias entre si.

Ainda bem que Borges nos esclarece. Ele não nos afirma que a vida é bela, mas que, apesar de tudo, ela “pode” ser bela se assim quisermos torná-la.

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