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A Quinta História

Sempre me sinto esquisita quando surge um assunto de preferências e favoritismos e as opiniões alheias não correspondem às minhas. Mas o que fazer, não é?
Sou tomada por um sentimento de inquietação e um desejo de argumentar quase patrióticos… Pior ainda é quando a autoridade do outro no tema é maior que a minha. Sinto-me frustrada, impotente e desarmada.

Aconteceu de novo.

Quando se fala em contos de Clarice Lispector há sempre quem diga “Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro “A hora da estrela”; nunca penso duas vezes antes do contra-ataque – surge como uma avalanche, num impulso desesperado de adentrar um combate verbal de conhecimentos literários e análises filosóficas.

A Quinta História. Sem duvída alguma o mais fascinante devaneio de Clarice.”

Todos me olham. Não adianta, foi dito – arrogantemente diga-se de passagem
A maioria nem sabe do que se trata, e por mais que esgote meu português… esta batalha eu sempre perco. Frustração
.

Aconteceu de novo.

Aula de literatura, quarto horário de uma quinta-feira fria. O assunto; Clarice Lispector. As referências vocês já sabem:”Felicidade Clandestina”, “O Primeiro Beijo” ou o livro” A hora da estrela“.
Vem a avalanche. Penso uma vez, duas…três. A tempestade se acalma e eu digo quase que num sussurro:

-“A Quinta História é um devaneio fascinante de Clarice, não é mesmo Cléber?.”

Encaro o professor com os olhos quase implorando uma confirmação, uma faísca de entusiasmo pelo lembrete repentino de um conto que transmite singularmente o enigma que é essa autora.
Ele me olha de relance, como se tentasse recordar alguma coisa e diz indiferente:

-Em “A hora da estrela” ela conta a história de Macabéa, uma nordestina atrapalhada que chega ao Rio de Janeiro e lá…

Sinto-me horrorizada, desamparada, decepcionada, ada, ada…
Frustrada
Se o professor não se lembra, quem há de se lembrar?
Prometo-me nunca mais dizer nada sobre “A Quinta História”.

Quem perde são os insensíveis que não sabem apreciar um texto de nuances mil e facetas infindáveis que te apresenta a estória de um novo ponto de vista a cada parágrafo desvendado. Um novo ângulo a cada vírgula. Uma maneira única e maravilhosa de se pensar literatura…
A avalanche ressurge e, em silêncio, quebro a promessa recém-nascida.
Um anjo mudo me confidencia aos ouvidos:

“Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas […]”

O anjo chamáva-se Clarice,
A Quinta História? Só lendo para saber.

Reflexões aleatórias

“O inferno são os outros”? …
Duvido muito. O inferno são as nossas expectativas em relação aos outros, e a crença de que temos o direito de tê-las.

MICROCONTOS – Os meus

Prometido e cumprido. Posto aqui os meus.

 

Acordei com céu escuro. Olhei para o relógio. Que estranho, o tempo parou. Acordei de novo. O relógio ainda estava parado. Havia amanhecido.

Não me importa o que dizem. Sou quem sou, sei quem sou. Como nada sei, suspeito que nada sou.

Já quis ser bailarina, jornalista e astronauta. Já quis fazer Direito, Medicina e Culinária. Hoje, o que eu aspiro é ser uma aposentada.

Ele apertou o cinto, apertou a gravata, apertou o passo. Foi trabalhar.
Seu tempo era apertado. Seu orçamento também.

Um rapaz buscava capturar um macaquinho fujão e me abordou no zoológico: “Viu o primata?” “Não”. Seria indelicado dizer que falava com um.

Tom era um homem sem vida. Não tinha amores nem livros. Não tinha ideias nem livros. Não tinha sequer amigos. Muito menos, livros.

Preparava-me para o feriado. Óculos, maiô, protetor solar. Sonhava com o calor, água de coco e o mar. Tudo pronto, mochila fechada. Choveu.

De sonhos transbordava-me a noite. Por piores que fossem, deixava-os. Eles sempre morriam ao amanhecer.

No meio do caminho não tinha uma pedra. Sinto dizer, mas não tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho havia apenas uma flor.

Eu bem que não queria mas a gramática me mandou Se ela mandou está mandado Devo concluir esta oração com um ponto final.

Concurso de Microcontos

O Blog do Noblat está promovendo um concurso para escritores de Microcontos. Só podem concorrer contos de até 140 caracteres [incluindo espaçoes e pontuação]. Dá um pouquinho de trabalho, mas já fazemos isso no twitter não é mesmo?

O primeiro colocado será premiado com um iPod da Estação Jaz e Tal e os dez primeiros serão publicados no blog do jornalista.

Estou concorrendo e assim que acabar o prazo para mandar os microcontos eu os publicarei aqui [os meus]. Espero que participem também. Escrever esses textículos é até divertido. Estou adorando.

Mais informações no

Maravilhoso

Quem disse que magia se faz com receita e poesia só se escreve com letras?

Aqui está a prova que não. O fotógrafo João Novaes publicou em seu site um vídeo com imagens fantásticas da neve que caiu em Barcelona (Cataluña) esta semana.

Aproveitem esta obra-prima de encher os olhos.

Bjos

A verdade sutil de Borges

Según se sabe, esta mudable vida

Puede, entre tantas cosas, ser muy bella.

[BORGES, Jorge Luis, La Luna]

Diante de tal afirmação há quem veria comicidade. Não em reconhecimento à graciosidade do verso, mas achacharia “graça” na ingenuidade poética do autor.

Em um tempo como este, com a agenda rabiscada de compromissos, com inesperadas urgências desesperadas nos incubindo de algo a todo instante, ocupando um tempo que não temos. Época essa de propostas ultrajantes, de emoções banalizadas e de surpresas ensaiadas. Uma vida cheia de vazio.

Pois se enganam os que assim pensam. A vida não é vazia por falta de escolha, uma vez que vivemos, também, numa era de oportunidades. Temos a possibilidade de alcançar nossas metas, desde que não sejam, obviamente contraditórias entre si.

Ainda bem que Borges nos esclarece. Ele não nos afirma que a vida é bela, mas que, apesar de tudo, ela “pode” ser bela se assim quisermos torná-la.

A genialidade do “jornalista” sueco

Estive envolvida nos últimos três meses na leitura de muitos livros, desde clássicos nacionais até best-sellers de sucesso mundial nos últimos anos. Dentre os últimos, a saga Twilight dos vampiros americanos até dispensaria comentários  já que foi o fenômeno da década, mas não posso deixar de dizer que fiquei viciada por duas semanas, tempo em que li e reli a série adimitindo que estive errada enquanto resisti à leitura e até mesmo critiquei alguns amigos que eram obcecados com a história um ano antes.

Mas nenhum dos livros que li foi tão fantástico quanto a trilogia Millenium do sueco Stieg Larsson. Quando se termina a leitura do primeiro livro [ “Os homens que não amavam as mulheres”] o fascínio é visível mas inesperadamente, na sequência “A menina que brincava com fogo”, o primeiro livro toma um aspecto  de “apresentação” dos personagens, já que a história realmente interessante só se desenvolve no decorrer da trilogia. Em “A menina que brincava com fogo” o jornalista Mikael Blomkivist vai em busca de uma explicação para o assassinto do amigo jornalista e da mulher deste, ao mesmo tempo em que busca provar a inocência de sua amiga e ex-parceira Lisbeth Salander que, aparentemente sem qualquer ligação com o casal, é ligada ao local do crime e procurada por todo o país. Mas isso é o de menos. A história se desenrola de modo que a própria Salander, foragida, segue a pista do assassino, remexendo em seu passado e expondo aos leitores a sua tão venerada privacidade. Lisbeth confronta todos os padrões a que estamos acostumados, e mesmo assim é impossível não nos encantarmos com a sua singularidade. O terceiro livro da obra “A Rainha do castelo de ar” é o desfecho da trama iniciada no segundo, onde a “Seção” da Säpo (que é responsável por toda a conspiração em torno de Lisbeth desde sua conturbada infância) é descoberta e desmascarada.

A menina que brincava com fogo - capa

Uma fascinante ficção que nos prende do início ao fim. Envolvendo investigação, mídia, órgãos públicos suecos, e altos espiões militares da antiga URSS protegidos por asilo político e convertidos em gângsters. Muita emoção e conteúdo. Uma obra que, embora sucesso no mundo todo, não trouxe, em vida, a glória para seu autor que faleceu logo após entregar os originais à editora, vítima de um ataque cardíaco. É uma pena que Larsson não tenha usufruído do sucesso de seus livros e que não mais terá a oportunidade de apaixonar os leitores de todo o mundo com seu tino invejável para a literatura, já que foi jornalista a sua vida inteira e teve a Millenium como sua única ficção.

A menina que brincava com fogo - capa